Arquivos da Demência Ontológica

 

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Dê um tiro na boca do Ari Almeida:

Terça-feira, Junho 01, 2004

 
PORQUÊ VANDALIZAR?

Hoje em dia não somos nada além marionetes manipulados pela tecnologia e por interesses comerciais. Marketeiros de plantão colocam sentido no vestir de roupas, carros, móveis e até mesmo na comida. Nós escolhemos nossos significados através de produtos, criando falsas noções do que somos e esquecendo por completo quem realmente somos.

Na verdade nada somos além de Projetos Comerciais.

Somos hospedeiros e a Cultura da Comodidade é nosso parasita.

Somos objetos vandalizados ¿ tortos, deformados, cobertos de marcas que não podemos dizer honestamente que escolhemos por vontade própria. Sugados da comunidade e de nossa própria humanidade, somos levados a acreditar que precisamos do nosso parasita para nossa identidade.
Será que alguma forma de arte ou de resistência da nossa era pode oferecer qualquer sombra de esperança de escape sem confrontar-se diretamente com a Propriedade Privada?

O que poderia ser a expressão mais completa de nossa desesperada falta de perspectivas do que essa atitude primal, bárbara, que é vandalizar?

Vandalismo é um ato intencional, trata-se de desfigurar algo considerado valioso pelos outros.
No entanto é também uma forma de expressão.
Vandalismo é também jovens amantes cravando seus nomes nos trocos das árvores, um moleque deixando seu nome escrito na parede de um hotel quatro estrelas, delinquentes largando merda em algum banco.

O que conhecemos por ¿vandalismo¿ é na verdade a rejeição da dependência do consumo.
O vândalo mina o sentido comercial.

A cultura do consumo cria um lodo sobre nós, mas é vulnerável em suas próprias raízes rasas. Ela teme toda a reflexão. Cidadãos vivendo dentro dela estão em estado permanente de evasão pessoal, evitando a contemplação pelo medo de enfrentar a realidade da completa falta de sentido em que vivemos ou, pior, a desvantagem competitiva e a exclusão social.

Vandalismo é uma expressão dessa psicologia de fuga e a compreensão de que a existência se tornou uma atividade criminosa.

Vandalismo é arte quando a arte não pode mais resgatar o sentido do absurdo esmagador das condições materiais atuais. Numa sociedade que valoriza o mito da total escolha, a escolha mais crucial se tornou criminosa: a habilidade de criar novos sentidos.

O ponto onde o mito e a realidade se encontram é na interseção da política e da arte, na ameaça do vândalo, do agitador cultural, do anarquista e do delinquente.

Dê um tiro na boca do Ari Almeida:
 
ARI ALMEIDA SE INTRODUZINDO PELA PSICOGEOGRAFIA

Pegue um mapa de sua cidade e diariamente vá riscando os trajetos que você faz, de casa até o trabalho ou escola e depois a volta. Faça isso durante uma semana, um mês ou um ano e observe o padrão que se formará. Fazendo isso vc descobrirá o quanto a cidade te bitola, o quanto vc é como um trem limitado a seus trilhos. Existe uma cidade inteira esperando pelas pegadas de seus sapatos.

A Psicogeografia é uma das maneiras de se reagir a essa bitolação. Como diria Luther Blisset, é uma forma de foder com o guarde de trânsito invisível que regula nossos passos.

Psicogeografia? Como assim?

Saia andando à deriva pelas ruas, sem um roteiro pré-definido e sem saber de antemão para onde irá. Quando chegar numa esquina ou numa bifurcação qualquer, escolha o caminho que achar mais agradável por um motivo ou outro. Tanto faz a razão, pode ser uma casa que achou bonita, uma árvore que te chamou a atenção ou uma concentração de pessoas, tanto faz. Ande bastante, anote as ruas e depois pegue um mapa da cidade a trace o trajeto que você fez. Anote com um asterisco os pontos onde vc se sentiu melhor ou achou mais bonito e interessante. Refaça esse exercício diversas vezes, sempre alterando o ponto inicial da jornada e sempre marcando no mapa o trajeto. Se possível, convide outras pessoas a fazerem o mesmo, depois compare os resultados e tente enxergar padrões. Se mais de uma pessoa marcar com um asterisco o mesmo local é porque sem sombra de dúvidas se trata de um ponto de poder. Quanto mais derivas forem feitas, maior será a possibilidade de indeitificação de padrões.

Aos poucos você descobrirá que existe uma outra cidade dentro da própria cidade. E aos poucos, você irá recuperar sua capacidade de ir e vir sendo senhor de seus próprios passos.