Arquivos da Demência Ontológica

 

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Dê um tiro na boca do Ari Almeida:

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004

 
EU TAMBÉM VOU RECLAMAR - Capítulo 1

Algumas pessoas podem até ficar surpresas, mas tem uma pretensa elite cultural brasileira que nos considera ultrapassados. Alegam aque até o próprio Hakim Bey não acredita mais nas Zonas Autônomas Temporárias. Pra essas pessoas só posso mesmo é parafrasear o próprio Bey:

- Quem disse que uma idéia ainda precise ser considerada vanguarda pela Grande Arte pra fazer uso dela?

Podemos (e devemos) até ir mais longe:

- De que adiantam grandes idéias se não podemos colocá-las em prática?
- Seriam essas tais grandes idéias úteis apenas para alimentar as discussões entre intelectuais apáticos que nada fazem pra melhorar suas vidas miseráveis?

A cultura não deve ser colocada numa redoma de vidro pra ser apreciada por aqueles que conquistaram o tão sonhado Bom Gosto. A cultura deve ser vivida, deve fazer parte de nosso cotidiano e nos salvar do tédio sem fim da Sociedade do Espetáculo.

Se a cultura não for tratada assim, não é cultura. É opressão.

A cultura não deve mais ser profanada pra servir de matéria prima pra criar esses seres cultos que me referi. É ridículo como eles se acham o máximo apreciando, num ambiente cuja multidão não pode entrar por não poder pagar ou estar vestida adequadamente, apreciando algo que foi criado por essa mesma multidão excluído.

E tem uma lógica nisso tudo. Uma lógica absurda, mas mesmo assim uma lógica. Vamos a ela.

Apreciar é a única diversão dos cultos.

Passivos e incompetentes, sem imaginação nem espírito, os cultos precisam agir assim. Incapazes de criar suas próprias diversões, de criar um mundinho seu, eles tem de absorver, conceituar e incluir no seu cânone artístico aquilo que a multidão cria.

Incapazes de criar ou de se relacionar, eles assistem.

Absorver cultura é uma tentativa desesperada, frenética, de gostar de um mundo insípido, de fugir ao horror de uma existência idiota. A cultura fornece um agradinho para o ego dos incompetentes, um meio de racionalizar a observação passiva.

Eles podem se orgulhar de apreciar as coisas mais finas, de ver uma jóia onde há apenas merda (na boa, eles querem ser admirados por admirar).

Não acreditando em sua capacidade de mudar o que quer que seja, resignados com o status quo, eles precisam achar a merda bonita porque, até onde vai sua visão de mundo, a única coisa que terão mesmo é cocô.

Um tiro na boca de todos com Muito amor & Muito Carinho
Ari Almeida